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Resenha #11: No jardim das feras - Erik Larson


Num dos meus acessos de vício em segunda guerra – que me atacam com frequência –, vi a suástica na capa e... comprei. Eu sei, eu sei, não se julga um livro pela capa. Mas o símbolo do nazismo aguçou minha curiosidade, e ela foi mais forte que eu. Que o deus dos livros me perdoe, mas eu não me arrependo.

“Jogo de poderes” pode muito bem ser uma expressão que define o que o livro de Erik Larson, “No jardim das feras”, conta. Não é ficção, mas é uma narrativa bem escrita e detalhada, que vai além da simples retratação dos fatos. É o tipo de livro que poderia muito bem se passar por ficção, se o tema não fosse óbvio demais.

Alemanha, período pré segunda guerra, ascensão de Hitler ao poder. Mais do que isso, Erik conta o que acontecia por baixo dos panos, além da Alemanha, além dos campos de concentração: Larson nos explica o que acontecia na embaixada americana na Alemanha e como os governantes norte americanos agiram antes e durante os ataques de Hitler, Erik nos mostra o que acontecia na embaixada enquanto o mundo explodia.

William E. Dodd, intelectual que aspirava terminar seu primeiro livro, pai de dois filhos já crescidos, e que era apaixonado por uma pequena fazenda nos arredores de Washington D.C. William E. Dodd, que se tornou embaixador por acaso, quando ninguém mais quis aceitar o cargo, caiu de paraquedas no Tiergarten, no jardim das feras.

Desde o início, o embaixador desconfiava daquela Alemanha à flor da pele. Não era calma como quando fora em outros tempos, quando ele era apenas um estudante. Pelo contrário, ataques aos judeus aconteciam e eram abafados com uma frequência já preocupante e, ao que parecia, ele era o único americano no mundo inteiro a se indignar.

Mesmo sua filha dizia que era a consequência da revolução que acontecia no país. A princípio, Martha achava aquilo tudo muito empolgante, era a juventude nazista se fazendo ouvir e reconstruindo um país destruído. Eram os nervos jovens explodindo numa revolução promissora.

Bom... Não é preciso ser um gênio para saber que havia muito mais além de uma simples “revolução promissora”. Os livros de história nos ensinam isso desde o ensino fundamental, não?

Dodd avisou o presidente norte americano da época, Roosevelt. Ele espalhou suas previsões aos quatro cantos do mundo, até que foi forçado a pedir demissão e a voltar aos Estados Unidos. De qualquer forma, suas campanhas anti nazistas não surtiram efeito e o governo americano não interviu na Europa antes que fosse tarde demais para milhares de pessoas.

Não é uma história feliz, não é a narração de uma aliada da União Soviética que salvou o mundo. Martha parece não ter feito muito como espiã e Dodd não parece ter sido um bom diplomata. Como ele mesmo deixou claro em diversos documentos, ele não nasceu para aquilo.

Mas, como Erik diz no final do livro, se ele não significava nada, por que os jornais alemães faziam de tudo para atacá-lo e colocá-lo como um inútil? Ele incomodou, mas não ao ponto de evitar o massacre que aconteceu na segunda guerra mundial. Não ao ponto de ser morto pelos alemães. Não ao ponto de influenciar seu próprio país.

Além da perspectiva de Dodd e Martha, “No jardim das feras” retrata o jogo de poder que acontecia no alto escalão alemão enquanto Hitler era Chanceler. Personagens importantes como Goebbels e Messersmith são citados muitas vezes e, é claro, Hitler, que não poderia faltar. O temperamento explosivo de Adolf é retratado sob a perspectiva de Martha e William. São as impressões deles que estão naquelas cenas e eu me pergunto como todos puderam fechar os olhos diante do temperamento daquele ditador. Segundo Dodd, Hitler conseguia ser encantador, mas era um monstro desgovernado, que perdia o controle com frequência.

De qualquer forma, os esforços dos Dodd não surtiram efeito. Se o tivessem feito, Erik Larson não teria motivo algum para escrever um livro intimamente ligado à Segunda Guerra. Não é um livro feliz, não é adorável. É a descrição da realidade.


Titulo: No jardim das feras;
Titulo Original: In the Garden of Beasts;
Autor: Erik Larson;
Tradução: Berilo Vargas;
Editora: Intrínseca;
Gêneros: Biografias e Memórias;
Número de páginas: 448;
ISBN: 9788580571776;
Ano: 2012.

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