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Resenha #12: O lobo da estepe - Hermann Hesse


Há um lobo por trás de cada um de nós”, é o que parece que Hermann Hesse nos diz, no início do livro. “Há infinitos de nós dentro de nós mesmos” é o que fica na nossa mente no final da leitura. “O lobo da estepe” chegou a mim como um presente do meu avô e ficou anos esquecido na estante, até eu ficar completamente viciada nas músicas d’O teatro mágico e descobrir que o nome veio do livro.

Mais uma vez: Obrigada, o teatro mágico.

Mas o assunto aqui não é a banda (que é ótima, por sinal), mas sim as vivências de Harry Haller, personagem principal, que tem sua vida assaltada pelas ideias malucas do tratado do lobo da estepe, que lhe foi entregue na porta do teatro mágico. Malucas para as pessoas normais porque, para o velho Harry, elas eram inteira e completamente sãs.

O velho Harry, nosso protagonista, vive num eterno dilema sobre querer se matar e não ter coragem o suficiente para isso. Em diversos trechos, ele se queixa do tédio de se sentir como sempre se sente, reclama da monotonia dos sentimentos humanos e do quão tedioso se tornou viver.

O lobo é uma criatura que vive no interior de Harry, fazendo com que ficasse inteiramente raivoso e anti social. Algumas vezes, chegava a engolir o homem que existia dentro dele. O homem era o exato oposto do lobo. Era sociável, gostava de Mozart e de literatura. Por vezes, costumava engolir o lobo que existia dentro dele. Ambos eram parte de Harry Haller e lutavam, constantemente, por um espaço maior em seu interior.

O tratado do lobo da estepe é um manifesto verdadeiro, que versa sobre a natureza do ser humano, mas é incompleto e o próprio livro o afirma. Não é sobre um homem triste que não encontra sentido na vida, não é sobre uma cortesã incompreendida, não é sobre os diversos prazeres humanos. “O lobo da estepe” é muito mais do que um livro, é uma obra prima. Possui várias frases poéticas que nos fazem pensar na nossa própria vivência, a linguagem é rica sem ser incompreensível e a narração nos leva à lugares interessantíssimos. Nem todos esses lugares são bons, é verdade, mas vale à pena conhecê-los.

Logo depois de ler o tratado, Haller conhece Hemínia – que lhe lembra vagamente um amigo longínquo, Hermann – e as palavras que ela lhe diz numa noite nada promissora mudam o seu modo de enxergar... tudo.

Hermínia traz consigo todo um mundo novo que Harry julgava-se incapaz de um dia fazer parte. Mesmo sendo tão opostos, suas personalidade são parecidas ao ponto de ambos se entenderem com perfeição. Até mesmo quando o assunto é a vontade que Harry sente de se matar. Hermínia e o Fox, Maria e Pablo. O Fox e a alegria de dançar sem pisar nos pés da sua parceira. Os sons, os cheiros e sabores da paixão de Maria e o teatro de Pablo. Tudo despenca em cima do nosso protagonista que, aos poucos, foi se deliciando com a descoberta dos próprios sentidos que até então julgava mortos.

Hesse une passado, presente e futuro. Ao mesmo tempo em que critica a guerra dos homens e das máquinas (o trecho mais genial do livro, na minha opinião), disserta sobre Mozart e música clássica.

Como convite para lê-lo, eu me permito citar um trecho do livro:
Convido-o para uma pequena diversão. Somente para loucos. A entrada custa a razão.”
E basta.


Titulo: O lobo da estepe;
Titulo Original: Der Steppenwolf;
Autor:  Hermann Hesse;
Tradução: Ivo Barroso;
Editora: Record;
Gêneros: Romance;
Número de páginas: 224;
ISBN: 8501020281;
Ano: 1968.
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