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#Resenha 23: Sono, por Haruki Murakami - Um ode kafkaniano sobre a morte

“Sono” é um conto de uma dona de casa que, após um pesadelo, não consegue dormir.

Sono” é um conto de uma dona de casa que, após um pesadelo, não consegue dormir.

A personagem tem um pesadelo de um homem regando seus pés no meio da noite. A cena vem na forma de uma paralisia do sono, e depois disso, não consegue dormir. Não precisa dormir, e o tempo livre que lhe sobra quebra sua rotina perfeita, o seu ritual diário, de mãe e esposa. Quanto menos dorme mais tempo passa regojizada.  Mas esta história não apenas sobre alguém que simplesmente parou de dormir. Pode ser sobre muitas coisas.

Antes de mais nada, “Sono” por inteiro é extremamente kafkaniano. Quem já leu Franz Kafka vai perceber a sensação de estar dentro de um sonho ruim, a estranha limitação autoinduzida que os personagens possuem, e como possuem vergonha ou insatisfação de si. Já de início sentimos a vida controlada que a personagem, da qual Murakami não nos entrega o nome, leva. E em como está alheia a tudo isso, e que embora não aprecie a vida que leva, e que tampouco tenha algo a reclamar, não há nada nesta personagem que realmente demonstre que sinta prazer. Ela costumava fazer muitas coisas quando solteira e que lhe davam satisfação, como beber conhaque e comer chocolate – coisas simples, mas imbuídas de simbolismo (o álcool e o doce são ambos alimentos que trazem a sensação de plenitude). 

Não dormir, para ela, trouxe novamente a necessidade de sentir prazer e prestar atenção no que está sentindo. Mesmo que não sejam os melhores sentimentos. Em alguns momentos do conto nos assustamos com o que ela pensa do marido e do filho, como os compara e desaprova o que conclui, ainda que seja o que explicitamente o que pensa, e se sinta livre para fazê-lo. Estas sensações de desgosto, talvez venham do fato de que muita das limitações dela chegaram com o marido, e aumentaram com o filho. E mesmo que tivesse a escolha de não ser assim, ela aceitou. 

E por isso muito deste conto não é necessariamente sobre dormir, mas sobre a morte. Ela passa a não dormir, mas há anos ela esta adormecida em uma rotina, sem viver. E no âmbito de “viver” incluem-se os problemas matrimoniais, situações desafiadoras, crises existenciais, as tristezas, as alegrias. O gosto e o ato de viver em sua finalidade mais literal, que inexiste. Ela é anedônica – não possui prazer. Sua vida não apresentou evolução, não demonstra movimento. E mesmo com a falta de sono dando-lhe tempo livre, ela não se desprende da rotina. Prefere viver a vida dupla de esposa e dona de casa, e manter secreta a vida noturna que leva – saindo para dirigir à noite ou apenas ficar lendo Anna Keranina no sofá da sala. 

E mesmo um fato tão absurdo acontecendo com alguém deveras comum (Kafka, novamente aqui, escondido), ela não procura ajuda e guarda para si o que vive, isolando-se do marido, da família, vivendo apenas no próprio contexto. Talvez, justamente pelo motivo de sua morte em vida, é que Murakami não deu à personagem um nome: ou por que a personagem poderia ser qualquer um que ande sobre a Terra e pede que você, leitor, se autocritique e coloque os sapatos dela, ou por que já está morta por dentro então, ter um nome, que confere a ela uma existência, já não é mais necessário. 

Depois de uma leitura tão densa e cheia de simbolismos, percebemos, não sem um certo choque, pela maneira que é seu desfecho, que a história é um conto, ou seja, é possível ler em uma sentada - e chegando a um clímax que deixa em aberto muitas questões para o leitor refletir. É neste momento que vemos a genialidade de Murakami, fazendo o melhor uso técnico da palavra conto: pelo seu timing perfeito de contar uma história que mais parece uma boneca russa, cheia de camadas, e no final, no ápice e de maneira abrupta, deixar o leitor com a sensação de que saiu do purgatório de alguém. 

Titulo: Sono;
Titulo Original: Nemuri;
Autor: Haruki Murakami;
Tradução: Lica Hashimoto;
Editora: Alfaguara;
Gêneros: Ficção;
Número de páginas: 120;
ISBN: 9788579623752
Ano: 1990.
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