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#Resenha 25: As Boas Mulheres da China - Xue Xinran


"As Boas Mulheres da China" foi escrito por Xinran, em meados dos anos 90. Atualmente, leciona na universidade de Londres, mas sua trajetória começou bem antes, como apresentadora do programa de rádio “Palavras na Brisa Noturna”. Seu programa fez tanto sucesso que começou a receber cartas de relatos da condição feminina na China, na época, um regime socialista e patriarcalista, em plena Revolução Cultural. Logo no seu primeiro relato, escrito por um menino de uma aldeia interiorana, é contado o drama de uma mulher presa na casa de um idoso do vilarejo que, após a morte da esposa, comprou uma garota para servir-lhe como esposa substituta e escrava. Por medo que fugisse, o velho acorrentou-a pela cintura a um dos pilares da casa. Xinran não conseguiu tirar a história da cabeça, e não mediu esforços para ir até lá e resgatar a mulher, que na verdade era apenas uma menina de doze anos, com a ajuda da pressão da mídia chinesa.
Não recebi nenhum elogio por salvar a menina, só críticas por 'deslocar soldados, causar agitação entre as pessoas' e desperdiçar o tempo e o dinheiro da emissora. Fiquei abalada com essas queixas. Havia uma garota em perigo e, ainda assim, ir em socorro dela foi visto como 'exaurir as pessoas e drenar o Tesouro'. Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?
O acontecimento deu início ao projeto e obsessão da autora: relatar as histórias das mulheres chinesas. Seu copilado incluiu relatos de inúmeras mulheres, desde seu próprio mundo – vindo de “uma família incompleta”, segundo ela, onde era somente ela e seu filho, junto com uma babá de dezenove anos que fugiu de sua cidade natal por causa um casamento arranjado. Passando por sua mãe, até as condições sob as quais são tratadas, e como agem, estas mulheres em catástrofes naturais e cotidianas. E o quanto podem ser vulneráveis.

Todas as histórias possuem sofrimento, e até mesmo uma certa beleza lúdica – como no capítulo “A menina que tinha uma mosca como animal de estimação”. Outros relatos sufocam o leitor, como uma menina sofrer um estupro coletivo após se perder de sua família em um terremoto, e enlouquecer devido à violência, cometendo suicídio. Ainda que atraia lágrimas do leitores, Xinran lida com o sofrimento destas mulheres com sensibilidade, muitas vezes sofrendo junto ao escutar os detalhes das narrativas de muitas mães sem filhos, e de muitas mulheres esquecidas, anônimas em seu sofrimento.

Xinran demonstra como mulheres e crianças ficam expostas em meio à catástrofes sociais e naturais, mas não apenas isso. Mostra, com exemplos, como as relações sociais são afetadas pela maneira que o partido político da época, e a cultura conservadora chinesa, minam os relacionamentos amorosos, interferindo na vida íntima dos casais e do que é permitido ou não falar quando a sós. Até mesmo um beijo na testa por alguém do sexo oposto poderia significar desonra para a família de uma moça. Todos os instintos são podados, e em nenhuma parte da vida as mulheres conseguem conceber a ideia de sexualidade de maneira plena. A boa mulher é a mulher submissa, ainda que se torne “” após um tempo, por não possuir a mesma beleza de outrora, e perder o valor.

O estupro, a escravidão e falta da possibilidade de a mulher formar a sua persona contrastavam com o novo ideal jovem da época: a chinesa moderna. Em uma passagem do livro, Xinran conversa com uma desenvolta universitária, que acha normal os chineses terem “secretárias particulares” e “acompanhantes”, e que o tipo de vida das suas ancestrais é patético. Para esta jovem, não há razão para acreditar no velho clichê de que o amor existe. Simplesmente não vale a pena dedicar-se a um homem cuja convenção social de demonstrar afeto a sua esposa é um sinal de desprezo a sua virilidade. Xinran fica surpresa com a opinião forte que esta universitária apresentou-lhe, e como esta decidiu que, na China, pelos mesmos motivos, não existem homens de verdade. Assim como suas mães e suas avós, a jovem não conhece a sexualidade e o carinho, e a autora deixa claro esta ponto convergente entre ambas as gerações de mulheres.
- E as esposas deles mesmos?
- São bacalhau salgado.
- Bacalhau salgado? Por quê?
- Porque o sal conserva por muito tempo. Quando não há outra comida, o bacalhau salgado é barato e conveniente, e, junto com arroz, dá uma refeição...
Ainda que relatos somente de mulheres e suas difíceis condições de vida em um regime ignorante, a maldade é ligada aos dois sexos – mães que não protegem suas filhas, homens que concordam em cometer abuso sexual coletivo em uma criança longe dos pais, filhos e filhas que esquecem de suas mães, todos os outros não envolvidos que são coniventes com a depreciação humana. Parece ser uma culpa impossível de escapar: não há lado neutro. Ou apoia-se este tipo de comportamento, ou é-se absolutamente contra. O contexto histórico é perigoso, e ser contra o partido, ou falar sobre questões de sexualidade feminina e violência contra mulher são proibidas. A própria autora mudou de país a fim de poder publicar seu livro de modo integral – até tentou fazê-lo na China. Porém o livro foi editado três vezes, até que simplesmente pararam de publicar. É possível ver como a autora se modifica durante a história sem perder a empatia, sua ingenuidade se perde com os contos destas mulheres. É certo que o maior dom desta jornalista é colocar-se no lugar do outro.

As Boas Mulheres da China é um romance tocante escrito por uma autora sensível. Um livro mor para qualquer pessoa que procure entender melhor a experiência de ser mulher, e o quanto a posição política de uma sociedade influencia no âmago dos sentimentos.

Titulo: As Boas Mulheres da China;
Titulo Original: The Good Women of China;
Autora: Xue Xinran;
Tradução: Manoel Paulo Ferreira;
Editora:  Companhia de Bolso;
Gêneros: Ciências Humanas e Sociais,  Psicologia;
Número de páginas: 256;
ISBN: 9788535910742;
Ano: 2007.
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