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#Resenha 26: Até o Fim da Queda, por Ivan Mizanzuk - Sobre as artes do convencimento e da alta magia


A história de "Até o Fim da Queda" inicia com um suicídio coletivo envolvendo sete jovens, no ano de 1993 e cujas investigações levam a crer que foram participantes de um macabro ritual satânico. Não encontra-se culpados e o caso é encerrado e dado como sem solução. Anos depois, o escritor - personagem principal do livro, que possui certa perversão pelo ocultismo e pelos suicídios de 1993, seu ano de nascimento – Daniel Farias escreve um livro de ficção onde tomou como base o evento, fazendo uma profunda investigação e chegando a conclusão de que estes jovens faziam parte de uma sociedade secreta chamada “Irmandade Vermelha” ou “Ordem do Dragão”, as mortes foram um sacrifício para que o “Dragão”, seu profeta, renascesse. 

Toda a irmandade baseia-se em cartas escritas por um padre renegado, chamado Frei Marcos, cuja alcunha era “O Fugido”. Era um padre exorcista do vaticano, que foi enviado a um vilarejo para cuidar de um caso de possessão. Todas as cartas são relatos avulsos do exorcismo mal sucedido da garota Isabel, e que foram copiladas em um livro escrito por Juan Miguel de Rosas, chamado “As Confissões Perdidas”. O Frei claramente envolve-se com a menina, se romanticamente ou não isto não fica claro, – então nega a Igreja Católica e perpetua a Irmandade do Dragão pelo mundo, tomando Isabel como a mãe do novo profeta de um “deus verdadeiro e obscuro”, o Dragão. Foram pelas palavras de Isabel, entendidas e reescritas pelo Frei Marcos, que uma sociedade satânica, com membros ao redor do globo e à sombra da sociedade, criou-se e progrediu desde a idade média até então. Daniel tem ainda, os essenciais relatos de Euclides, um membro oficial desta sociedade, que lhe concede entrevistas por meio de uma gravação em fita K7. 

O livro de Daniel faz sucesso, mas os jovens que o leem, em sua maioria, cometem suicídio. O que faz a obra tornar-se parte do Index Librorum Prohibitorum, proibindo a leitura aos católicos, aumentando seu apelo e alavancando a fama do escritor. Sua polêmica o leva a uma entrevista de televisão, com uma apresentadora tendenciosa, e o jogo de perguntas respostas se torna a espinha dorsal de todo o livro. 

A narração de "Até o Fim da Queda" não é linear, toda a historia é contada em recortes de jornais e as fotos nas reportagens são de usuários de redes sociais que cederam sua imagens à Ivan, como ele mesmo revela em um posfácio. As gravações em fita K7 com Euclides são as partes que deixam pistas para compreender o livro, e onde ele explica como funciona a irmandade e a magia negra. A entrevista de televisão mostra a personalidade do autor, Daniel, o quanto ele é cínico e dúbio e parece o próprio pai da mentira. Ao ler a entrevista, realmente questiona-se de algumas coisas e, para alguém com fé maior, talvez seja perturbador os argumentos bem tecidos de alguém que alega que o mundo louve a um Deus falso. Talvez muitos se coloquem no lugar da entrevistadora, onde suas perguntas revelam a desconfiança e a sensação de que, ao lidar com Daniel, todos estão pisando em ovos. As cartas do Frei são breves, porém os relatos mostram a capacidade de convencimento e o poder de uma sugestão, que junto com a entrevista, tornam um livro um ensaio crítico sobre o que acreditamos, o que é mal e o que é bom. Um livro inteiro construído na dualidade e de um escritor que se esquiva disso o tempo todo: Fica claro desde o início que não é possível confiar em Daniel, e ao experimentar a obra como um todo, isso é bom.

Embora nenhum personagem seja real nesta história, ela segue a linha do ocultismo, muitas vezes ao pé da letra. Euclides revela a Daniel em uma de suas entrevistas que ele saberia que estava ligado à irmandade quando sonhasse com desertos negros. Impossível não comparar isso à Alastor Crowley, um mago negro, o homem que recebeu o apelido de “besta” e que escreveu diversos livros sobre o assunto. Crowley levava seus iniciados por meio de sonhos à Aeons, mundos paralelos aos nossos, por meio de viagens astrais e sonhos, que é o que se pode falar da experiência de Daniel: seja cruzando um deserto negro ou cruzando um mar de corpos e sendo engolido pela escuridão, o modo como é descrito o livro lembra demais as descrições de muitos grimórios de magia e dos livros de Alastor. Diversos grimórios de alta magia trazem essa mesma premissa de viagens astrais, rituais e invocação de demônios, onde Mizanzuk provavelmente deve ter conhecimento e fez uso intencional (considerando seu mestrado em Ciências da Religião).

Ivan fez um trabalho requintado em seu livro, sua abordagem em expor uma religião da qual todos tem o direito de aderir mas muitos viram o rosto é bem planejada, e conseguiu levar o leitor por uma visão completamente diferente. Bons escritores não dizem, mostram - e Mizanzuk sabia o que estava fazendo. Mas há um problema: o final. A sensação, quando se lê este livro com os olhos de alguém que entende o quão hercúleo é fiar uma história contando-a com opiniões e fatos, e como é extenso o campo da religião para pegar um amostra disto e amarrar as pontas, vai sentir que o autor parece ter se segurado quando escreveu o final. Não é uma sensação de querer mais, e tampouco é como Sono de Murakami onde o final é essencial para entregar o leitor a mensagem. É como se faltasse uma boa parte dessa obra que não foi devidamente aproveitada e o que vem a mente é “há algo mais sombrio que não foi colocado nas páginas”. Um final intencionalmente incompleto? Talvez. Mas definitivamente uma obra e um ensaio crítico primoroso em forma de história.

Titulo: Até o Fim da Queda;
Autora: Ivan Mizanzuk;
Editora: Draco;
Gêneros: Suspense, thriller, policial;
Número de páginas: 244;
ISBN: 9788582431177;
Ano: 2015.
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