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#Resenha 30: A poesia e o que nos une

A mente humana muda com a idade, e nossos princípios e visão de mundo evoluíram com o envelhecer da humanidade – talvez não para o mais correto, não para o melhor para todos, mas para algum tipo de raciocínio mais elegante que aquele de outrora. O mundo se expandiu, ficou mais caótico: as certezas diminuíram, os tipos de experiências diferentes que se pode viver e a expectativa de vida aumentaram, e o tempo em que caminhamos pela terra pesa nos ombros de todos. Mas algumas coisas não mudaram. Continuamos humanos, violentos demais para o nosso próprio bem, sedentos do que quer que seja – uma vida melhor, amor, dinheiro, poder, liberdade. E não poucas vezes, os autores do passado exprimem o que pensamos agora, e mesmo para os autores modernos, muitos dos temas continuam sendo os mesmos.

A poetisa Nayyra Waheed, em seu livro "Salt", faz alusão ao mundo moderno de maneira delicada, mas pessimista. A guerra continua sendo um tema recorrente, mulheres continuam sendo motivo de poesia, e a liberdade também. E é disso que Nayyra quer falar. Abaixo, uma poesia sua, que fala de um tema moderno: imigração, a crise humanitária. Mas não é como se já não houvesse existido antes, escrito sobre a rejeição de ser novo em um lugar que não possui espaço para você. É apenas de um jeito diferente, em versos mais curtos, uma reflexão silenciosa. Lembra um eco que se perdeu, um tema que ninguém se importou.
You broke the ocean in
Half to be here.
Only to meet nothing that wants you.
- immigrant
(Você parte o oceano ao/meio para estar aqui. / apenas para encontrar nada que o queira. – imigrante)

E claramente isso faz uma alusão á crise no mundo árabe, e à guerra que vem se arrastando. Ás pessoas que não podem voltar para casa por que a guerra a destruiu, como aconteceu em Aleppo. Pessoas procurando um lugar onde existir em segurança, onde os arredores lhe foram negados – apenas para chegar na Europa e não haver desejo e nem lugar para eles, e caso consigam viver ali, modo de vida europeu seria em algumas décadas sobrepujado pelo árabe. E talvez não exista mesmo espaço para eles em lugar nenhum, o que dá sentido à expressão crise humanitária: não há como acolher, de maneira a não prejudicar ambas as culturas. Humanos não poderão aceitar humanos. E por isso mais pessoas morrerão. 



Parece até um poema cosmopolito, se "Salt" não tivesse sido publicado em 2013. E embora a crise no mundo árabe venha se arrastando há bem mais tempo que os últimos dois anos, é um poema que exprime o que os refugiados em 2016 e 2017 sentiram e estão sentindo, e que faz quem vê de fora, compreender. Em uma escala muito menor, é como se o leitor ao parar para pensar sobre tudo isso, tivesse que engolir a Guernica de Pablo Picasso em apenas três versos. 

Nayyra é quase um fantasma. Não há fotos dela na internet, em seu twitter são poucas as coisas que falem sobre sua pessoa. O máximo que se pode assumir é que ela seja uma mulher negra procedente ou natural dos Estados Unidos e que mora no Broklyn. Seu trabalho abrange todo tipo de sentimento em seus poemas, todos uma facada para quem lê. Deixa o leitor pensando, quando não perdido ou enclausurado, e fala sobre a condição da mulher, ou ao menos luta para mudar os paradigmas femininos. O poema abaixo remete à uma situação de enclausuramento, se é sobre o país que está ou sua situação ou sobre uma pessoa em especial, será impossível dizer com certeza.
Both.
I want to stay.
I want to live.
rI am three oceans away from my soul.
- lost.
(Ambos. / Eu quero ficar. / Eu quero ir embora. / Eu estou à três oceanos de distancia da minha alma. – Perdido.).

Porém, há uma autora inglesa que viveu na era vitoriana, onde uma mulher de fato não possuía voz alguma, e teve que usar um nome masculino para poder publicar. Ela era branca, talvez nunca falara com um negro. Saiu poucas vezes de seu vilarejo e morreu aos 30 anos. E sentiu, muitas vezes, a sensação de enclausuramento. Emily Brontë era esta mulher. E no poema abaixo vemos que, embora com mais versos, em métrica diferente, e certamente, em um ambiente rural, Brontë sentia as mesmas coisas que Nayyra:
Diante de mim a noite se torna mais escura,
As rajadas do vento são mais frias e selvagens.
E eu, aprisionada a este sortilégio,
Não posso mais partir.

Gigantes, as árvores se arqueiam,
Galhos nus sob a pesada neve;
Já a tempestade inclina mais baixo a sua fronte,
Por isto não posso mais partir.

Sobre mim o espaço e as nuvens;
Os desertos desaguam aos meus pés.
As solidões não me comovem mais;
A vontade se acha extinta,

Não posso mais partir
Emily tinha algo que a prendia ali, e tanto em seus poemas quanto na prosa, vemos os temas recorrentes de religião, morte, amor e imobilidade. Ao ler seus versos e "O Morro dos Ventos Uivantes", vemos os mesmos temas, os mesmos problemas tratados de maneira semelhante e que, claramente, as obras surgiram de ideias paralelas. Ainda que Emily, no século XIX, e Nayyra no século XXI, ainda que a primeira seja uma autora clássica e Nayyra, uma criatura pouco conhecida e discreta, ambas escreveram da mesma maneira sobre a sensação de não poder partir. Ainda que diferentes em cor, raça e tempo, seus trabalhos se assemelham em essência. 

Emily também teve que aprender a conviver com a morte. A de sua mãe, quando jovem, e mais tarde a de seu irmão. Devido ao lugar frio e inóspito, morava ao lado de um cemitério cuja a água que escoava para a casa era contaminada – local que inspirou a ambientação de "O Morro dos Ventos Uivantes" – e ao isolamento social, teve que lidar com a solidão e conviveu pouco com outros que não fossem seu irmão e suas irmãs. Após o enterro do irmão, contraiu tuberculose e morreu três meses depois. Isso não é nenhuma particularidade de Brontë, muitos escritores tiveram histórias trágicas e vida curta, entre eles, dos brasileiros, Alvares de Azevedo se destaca.

                            Emyli Brontë                                               Alvares de Azevedo


Alvares de modo semelhante perdeu um irmão muito jovem, suas poesias em uma métrica elegante falam de goetia, tristesa e morte. E possuem o mesmo tom gótico de Brontë. Também morreu de tuberculose, mas aos 20 anos (em abril de 1852). Uma morte prematura para uma carreira literária brilhante, cuja a obra mais falada é "Lira dos Vinte Anos". Enquanto Emily falecia, Alvares desabrochava. Abaixo, versos do poeta sobre a morte:
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
É particularidade da poesia, as vezes mais que a prosa talvez, que algo vivenciado e emocionado há séculos seja vivido novamente por outro. E ainda que não um grande escritor, ou poeta, ou imortal, uma pessoa comum pode compreender o que ali está escrito, pois em algum momento, talvez até de uma maneira metafísica, o universo deste autor e deste comum, se encontram, junto com tantos outros. Nesta perspectiva a poesia os une e transpassa a barreira de raça, credo ou cor. Ou tempo. Emily jamais conhecerá Nayyra, e Alvares talvez nunca tenha ouvido falar de Emily e, se passasse pelas duas na rua o mancebo jamais lhes daria atenção, bem como o contrário – mas todos eles estão conectados de alguma forma, e se comunicam, ainda que de maneira indireta, e contribuem para essa mudança de padrão refinado de raciocínio para o qual a humanidade evoluí, independente de sua crise ou não, independente de este ser o caminho correto. Como se a vida corresse em um narrativa muito semelhante pela qual todos nós devemos passar. Mas, há alívio em saber que, em algum momento, na história deste planeta, houve alguém que o compreendeu em um nível que o leitor não imaginava: e que ali está, exprimido em palavras, tudo aquilo que ele não pode ou não quer dizer.
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